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Engole Esse Choro!

        Engole Esse Choro! Quem nunca ouviu e um dia falou para seu filho? Lembra daquele dia, em que você já era um pouco maior e estava com alguém, que provavelmente era seu pai, sua mãe ou avó no supermercado, padaria, e lá estava uma criança aos berros no colo de alguém, e então você ouviu: “nossa que feio”.

        E, aquela outra vez, numa conversa entre as tias, uma contando para outra que foi na casa de alguém, em alguma reunião familiar e o tal do Joãozinho dizia que queria a mãe dele e chorava, chorava. Aí então você ouviu: “que piá manhoso, nossa que feio”. E, por muitas vezes, em casa, quando passava por alguma situação difícil e chorava também ouvia “e agora já chega de choro!”. Lembra? E você, então que é menino deve ter ouvido num mínimo de um milhão de “menino não chora” “homem não chora” “isso é coisa de mulherzinha”.

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        Destas e outras maneiras, crescemos aprendendo que o comportamento de chorar é feio, é reprovado, e é ruim. Seguindo por esse caminho, quando alguém chora, muitas vezes tentamos distrair quem está chorando com outra coisa ou até mesmo oferecer um doce, fazemos tudo para tentar parar o choro.

        Mas, por que será que o choro é tão feio? Será porque incomoda quem está por perto? Será que é porque pode nos lembrar da nossa impotência de não permitir que o outro sofra? Nós pais, diariamente precisamos colocar limites nos pequenos, e, muitas vezes, segue o choro. “Mas precisa chorar tanto?”, pensamos muitas vezes. Voltando a um texto anterior, a nossa perspectiva é a do alto, minimizamos o motivo do choro, porque para nós “é só por isso”. Dizemos não, a criança se frustra e chora. “Tudo bem que se frustre, mas não precisa ficar me lembrando que você está sofrendo.”

        O choro mostra concretamente através das lágrimas, que sim, aquela pessoa que você ama infinitamente está triste, está sofrendo “só por aquilo” ou “por tudo aquilo”. E, melhor seria, para mim, você não ficar me mostrando, para que eu não sofra junto. Pois talvez não suporte…

        Porém, precisamos considerar, que para criança, é muito importante chorar para extravasar seus sentimentos, aquilo que ela ainda não domina, não consegue lidar, aparece muitas vezes através do choro. Mais ou menos assim… Um domingo tranqüilo em família e tudo vai bem, foram até passear no parque, com direito a sorvete e tudo, voltam para casa, hora do banho, e então acontece aquele choro desproporcional à simples proposta de banho. Todos da casa tentam acalmar, até que aparece: Engula esse choro, menina! Afinal “é só um banho”.

        Acompanhe comigo, agora o mesmo passeio, em “slow motion”: durante a ida para o parque seus pais discutiram no carro. O motivo? Naquela noite, seu pai iria mais uma vez viajar a trabalho, e sua mãe, não gostava muito dessa situação. Nossa pequena princesa, já lembrou então que ficaria alguns dias sem ver seu pai e suas histórias que ela tanto gosta de ouvir quando vai dormir. Sobre a discussão dos pais ela não sabia o que pensar, apenas sentia um aperto no peito. Quando voltaram, ouviu sua mãe falar ao telefone que sua avó não está bem, hospitalizada, mas ainda não sabem o que ela tem. E, a nossa princesa, já andou aprendendo por aí e é bem esperta e sabe que o hospital não é uma coisa tão boa.

        Tudo isso me faz pensar que realmente “não era só um banho” e que essa pequena ainda não possui recursos para lidar com tantos sentimentos e situações, pois ela ainda não consegue discriminá-los. Olhando para a menina do banho, vejo, que poderia ser exatamente a mesma que por vezes encontramos em um supermercado ou padaria chorando, ou até mesmo aquela que suas tias contaram que chorava naquela festinha. Mas ela não pode chorar, porque trata-se de um comportamento socialmente reprovado, feio.

        Um novo aprendizado seria aprendermos a “escutar” o choro das crianças, escutar, simplesmente apoiando, ficando junto, deixando fluir aquele sentimento até o fim, sem oferecer um doce, distrair com um brinquedo, ou oferecer conforto. Deixar o choro acontecer, simples assim, como são as crianças, nós os adultos é que costumamos complicar.

        À medida que as crianças crescem e se desenvolvem também é possível auxiliá-las a entender e discriminar seus sentimentos. Como tristeza, alegria, raiva, medo, e outros mais específicos, a fim de que possam expressar suas emoções também de forma verbal. Demonstrar empatia descrevendo seus sentimentos, também pode se mostrar como um recurso importante, como por exemplo dizendo “eu sei como você está triste, quando eu era criança eu também chorava muito quando meu pai saia para trabalhar, pois eu queria ficar o tempo inteiro com ele.” Demonstrações desta natureza, possibilitam às crianças sentirem-se compreendidas e oferecem modelos de como eles podem se expressar em situações futuras.