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“Eu sei que a nota de matemática não foi legal, mas…

Sobre a auto-estima

Enfim chegou! O retorno aos compromissos escolares, às exigências, provas, notas e afins. E aqui estamos nós pais sobrecarregados novamente com a rotina de trabalho, afazeres domésticos, e sempre preocupados com o desempenho escolar das crianças. As notas precisam ser boas, os pequenos precisam “ir bem”, já no primeiro ano os pais já estão pensando na competitividade do mundo atual. E, trata-se de uma preocupação legítima, pois uma vez inseridos neste sistema, precisamos correr atrás de recursos.

Em meio à estas exigências, as crianças já sabem que precisam tirar uma “nota” boa, dependendo do estilo parental, esta nota pode ser mediana, ou ainda precisa ser muito melhor. O que acaba ficando confuso para as crianças, com muita frequência, é o seu valor como pessoa no mundo está relacionado às suas notas escolares. Precisamos, nós, os pais e/ou adultos responsáveis deixar claro para as crianças que independente da nota alcançada, ela continua sendo amada, e, nem mais por uma nota melhor, nem menos por uma nota pior.

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Muitas crianças recebem prêmios, ou recebem um bom tratamento em casa por apresentarem um bom rendimento escolar. E, da mesma forma, se este rendimento diminui a forma de ser vista e tratada também piora, o carinho diminui, o toque, o afeto, os pais se afastam, ficando desta forma percebido, que o amor que recebe é diretamente proporcional ao seu desempenho escolar, como em uma relação de troca, ele só recebe afeto se apresentar bom desempenho. Relações de pais e filhos construídas sob esse padrão, costumam gerar sentimentos de ansiedade e baixa auto-estima. Muitas vezes, são os adultos que recebemos em consultório, com um “sentimento de vazio”, muito difícil de ser explicado e altos níveis de ansiedade.

“Eu sei que a nota de matemática não foi legal dessa vez, mas nesse momento quero ficar um pouco aqui com você assistindo ao filme” Situações como essa, produzem sentimentos positivos de sentir-se amado mesmo na adversidade. Assim como, oferecimento de apoio e acolhimento: “Podemos juntos ver a melhor forma de você recuperar esta nota”. Manifestações parentais de credibilidade também são muito bem-vindas, algo assim: “eu sei que vai conseguir”. O que precisa ficar relevante na relação e na comunicação é a pessoa, não seu comportamento, para que a criança possa sentir-se amada, e dessa forma aprender a gostar-se e atribuir valor a si própria. “Que bacana isso que você fez filho, achei muito legal” “Que bonito a forma que você conversou com aquela pessoa, achei incrível”

Elogiar e agradecer o sorriso aberto e alegre que você pai ou mãe foi recebido ao apanhá-lo na escola, e tantas outras manifestações que, com cuidado, podemos perceber em nossas crianças, contribui para uma boa auto-estima, um sentimento de satisfação consigo própria, e de estar bem e ser feliz neste mundo. Da mesma forma, esses princípios, podem ser vistos, e aplicados nos ditos “maus comportamentos” que apresentam em casa, e no ambiente em que está inserido. É importante demonstrar que é querido e amado apesar de ter derrubado a comida, sujado a roupa da mãe pronta para sair, não ter obedecido em determinada situação ter feto algo escondido, e que sobretudo, sabemos, que eles podem melhorar sempre.

Ainda, em tempo, é importante esclarecer que todo o conteúdo exposto, passa longe do tema “limites”. Oferecer amor e apoio na adversidade, não está relacionado com dizer “não” para as crianças. É preciso direcionar: “agora não é hora ficar no computador, já temos um combinado, você precisa estudar” “não dá pra ficar na TV até tarde, você precisa dormir cedo, para acordar e ir à escola amanhã”. Em paralelo ao amor, nós adultos precisamos conduzi-los, e dizer até onde eles podem ir. Um “não” dito com firmeza e doçura e em alguns momentos com certa dureza, irá reverberar no corpinho da criança a ponto de gerar em muitas situações crises de choro e sentimento de frustração,  que consiste em um sentimento essencial para que a criança possa ocupar um lugar no mundo, e, sempre que necessário, saber entrar na fila, esperar sua vez, respeitar as pessoas, seu espaço e o dos outros, ter rotina, horários, disciplina, e tantos outros aprendizados que os limites podem oportunizar, o que seria um longo assunto para outro texto.

Concluindo, esta dupla, bem conduzida, pode contribuir para adultos emocionalmente saudáveis e felizes: oferecer afeto sempre e dizer “não” sempre. Uma criança que recebe afeto independente do seu comportamento, ou seja, não está em uma relação parental de troca, consegue lidar melhor com os limites e regras oferecidos em casa, na escola, e nos ambientes que está inserida. Assim como sente-se compreendida, consegue compreender, pois percebe, que quem oferece o amor, é o mesmo que impõe o limite.